Ivan Schuster
174 – O surdo do Leleco
04/07/08 - 16:54


Leleco é um jovem de 12 anos, filho de médicos, nascido e residente em Porto Alegre. Pela sua pouca idade e boa condição social, felizmente, ainda conhece pouco da vida, das injustiças sociais, das relações promíscuas entre governantes e governados, da cotação do dólar, do imposto de renda, do preço do pãozinho, da gasolina batizada e tudo mais que nos assombra e, por vezes, deprime. Digo felizmente porque na sua idade não deve mesmo ter conhecimento destas coisas. Infelicidade é sabermos que existem muitas crianças tão jovens quanto ele, ou mais, que já enfrentam uma batalha diária pela sobrevivência.

Mas o que quero contar sobre o Leleco é que ele é Xavante. Mesmo morando em Porto Alegre, sob a influência diária da mídia grenalista e sofrendo gozação dos seus colegas e amigos, que não entendem como alguém pode não ser gremista ou colorado, o Leleco percebeu muito cedo que havia nascido Xavante, e sempre sentiu-se bem com isto. Ser Xavante não é opção, é destino. Não se vira Xavante, se nasce Xavante.

O primeiro jogo do Leleco no Bento Freitas foi em uma partida válida pelo Gauchão 2006 contra o São Luiz-Ijuí (GEB 3 x 2 SL). O fato é que a imagem do Caldeirão cheio e fervente, a ansiedade da espera, a visita na sede da Garra Xavante, a festa da Torcida Xavante na entrada do Esquadrão Rubro-negro em campo e tudo o mais, fez firmar aquele sentimento de felicidade, paz e orgulho que só quem é Xavante consegue sentir e entender. Ali, naquele dia, Leleco foi batizado “Torcedor Xavante”.

Desde então, o Leleco tornou-se uma espécie de Torcedor símbolo da nova geração, o mascote da Onda Xavante. Não só resiste ao “establishment” esportivo Gaúcho, como ainda difunde a “palavra Xavante” entre seus colegas e amigos em Porto Alegre, por vezes, presenteando-lhes com o Manto Sagrado. Isto sem falar nas inúmeras contribuições para as ações promovidas pelos participantes do Fórum Xavante ( http://www.forumxavante.com ).

O Leleco é uma prova viva de que resistir é possível, de que podemos nos multiplicar e crescer além das fronteiras da Ponte do Retiro. Um exemplo para nós, Xavantes expatriados, integrantes desta Onda Xavante, para que assumamos este nosso papel de missioneiros, responsáveis por levar a outros pagos a mensagem da felicidade que é ser Xavante. Cabe a nós difundirmos a visão de que há uma forma de torcer e ser feliz, sem mágoa, rancor ou violência. Ser Xavante é ser o “show”.

A questão é que agora o bicho vai pegar. Não satisfeito em acompanhar seu pai nas excursões da Onda Xavante, em entrar em campo com nossos Guerreiros, em poder dizer orgulhosamente “eu sou Xavante”, só para ver a cara de espanto dos grenalistas, o Leleco extrapolou, rompeu barreiras, parou o trem. Enfim, pediu um surdo de presente. E ganhou!

É isto mesmo. O Leleco ganhou um surdo (da Multissom, claro) que não cabe dentro do ônibus. Em bom gauchês: Uma munaia dum surdo. É quase um treme-terra. Reza a lenda que precisou de dois para carregar a caixa para o carro. Foi necessário entrar em casa pela janela.

Agora, meu povo, quando os nossos Guerreiros entrarem em campo e a Garra Xavante fizer a tradicional saudação, batendo seus instrumentos de percussão, é muito provável que no meio daqueles artistas musicais esteja o Leleco, “A Lenda”. Um guri orgulhoso, feliz e agradecido por ter tido a sorte de ter nascido Xavante, ajudando a dar o ritmo no pulsar dos nossos corações.

Rubro-negro vem aí! Rumo à Série B!

Abs,

Ivan Schuster

E-mail: ivan@brasildepelotas.com